Durante muito tempo, contratos me pareceram uma forma segura de estabelecer relações profissionais. Estavam ali as condições, os deveres de cada parte, os prazos, as assinaturas. Em algumas situações, reconhecimento de firma. Tudo devidamente registrado.
A experiência, entretanto, foi me mostrando uma coisa aparentemente óbvia, mas nem sempre lembrada: contratos não garantem comportamentos.
Eles são necessários. Estabelecem direitos e deveres, documentam aquilo que foi acordado e oferecem instrumentos legais quando uma das partes não cumpre sua obrigação. Devemos fazê-los. Mas talvez estejamos pedindo ao contrato algo que ele nunca poderá nos oferecer: integridade.
Um contrato pode registrar um compromisso. Não pode produzi-lo.
Há uma expressão antiga, hoje quase anacrônica: “fio do bigode”. Um acordo feito no fio do bigode não precisava de páginas, cláusulas ou assinaturas. A palavra empenhada era suficiente.
Não pretendo romantizar outros tempos nem defender relações profissionais sem contratos. A expressão me interessa por outra razão: ela coloca a palavra no território da honra pessoal.
Eu disse. Portanto, comprometi-me.
E isso nos leva para além do Direito e para dentro do comportamento humano.
Inteligência moral
Há muitos anos utilizo em minha prática clínica alguns conceitos apresentados por Doug Lennick e Fred Kiel no livro Inteligência Moral. Os autores trabalham quatro competências fundamentais: integridade, responsabilidade, compaixão e perdão.
A integridade ocupa um lugar particularmente importante nessa reflexão porque pressupõe coerência entre princípios, valores, crenças e comportamento.
Não basta dizer aquilo em que acredito.
É preciso viver de maneira minimamente coerente com aquilo que afirmo acreditar.
É nesse espaço entre a palavra e a ação que a integridade se torna visível.
Prometer alguma coisa quando as circunstâncias são favoráveis é relativamente simples. O compromisso começa a mostrar sua verdadeira consistência quando cumprir aquilo que prometemos se torna difícil, inconveniente ou custoso.
Naturalmente, pessoas íntegras também podem não conseguir cumprir um compromisso. Uma doença, uma crise financeira, uma perda, uma circunstância imprevista podem tornar impossível aquilo que, no momento da assinatura de um contrato ou de uma palavra dada, era perfeitamente possível.
O descumprimento, isoladamente, portanto, não é suficiente para definir a qualidade moral de uma pessoa.
É preciso observar o comportamento diante do descumprimento.
- Ela procura o outro?
- Reconhece aquilo que havia prometido?
- Assume a própria responsabilidade?
- Demonstra compreender o impacto que sua impossibilidade provoca?
- Procura uma solução?
- Tenta reparar?
Existe uma diferença enorme entre não conseguir cumprir uma palavra e deixar de se responsabilizar por ela.
E talvez seja justamente aí que integridade, responsabilidade e compaixão se encontrem.
A dor do outro
Quando alguém não consegue cumprir aquilo que prometeu e possui consciência moral sobre sua responsabilidade, existe algum grau de desconforto.
Não estou falando de culpa teatral ou sofrimento exibido. Estou falando da capacidade de reconhecer: a minha impossibilidade está produzindo consequências para outra pessoa.
Essa percepção importa.
Porque responsabilidade moral não é apenas perguntar:
“O que acontecerá comigo?”
É conseguir perguntar também:
“O que o meu comportamento está provocando no outro?”
A compaixão introduz o outro na equação.
E a responsabilidade impede que utilizemos nossas dificuldades como justificativa automática para transferir ao outro o custo das nossas escolhas.
Boa-fé não é uma palavra
Há ainda uma expressão muito utilizada nos contratos: boa-fé.
É uma expressão poderosa.
Mas boa-fé não passa a existir porque foi escrita em um documento.
Assim como a integridade, ela precisa encontrar correspondência no comportamento.
Posso escrever “boa-fé” em uma proposta. Posso declarar minhas melhores intenções. Posso assinar um novo compromisso depois de não ter cumprido o anterior.
A pergunta continuará sendo a mesma:
O comportamento sustenta a palavra?
Confiança não é produzida por uma declaração de confiança.
Ela é construída historicamente.
Promessa após promessa. Ação após ação. Coerência após coerência.
Da mesma maneira, pode ser destruída historicamente.
Quando palavra e comportamento deixam repetidamente de coincidir, não é uma nova palavra que imediatamente restabelece a confiança. Será necessária uma nova história de comportamentos.
Porque confiança não se exige.
Confiança se constrói.
O contrato e aquilo que vem antes dele
Talvez seja por isso que, depois de tantos anos observando relações humanas — na clínica, nas organizações e na própria vida — eu tenha passado a olhar os contratos de outra maneira.
Continuo reconhecendo sua importância.
Contratos protegem. Documentam. Estabelecem limites. Definem responsabilidades. Permitem que a lei intervenha quando uma relação deixa de funcionar pela vontade das partes.
Mas um contrato não transforma uma pessoa em alguém confiável.
Não produz honestidade.
Não produz responsabilidade.
Não produz compaixão.
Não produz integridade.
No máximo, estabelece consequências para quando essas coisas faltam.
E existe algo quase paradoxal nisso: quanto mais precisamos recorrer às cláusulas para obrigar alguém a cumprir aquilo que livremente prometeu, mais percebemos que o documento continua existindo, mas alguma coisa anterior a ele já se rompeu.
A confiança.
Talvez o antigo “fio do bigode” tenha alguma coisa a nos ensinar, afinal.
Não que devamos substituir contratos por apertos de mão.
Mas talvez precisemos recuperar a compreensão de que, antes da assinatura, existe uma pessoa.
Depois da assinatura, também.
E é essa pessoa, não o papel, que decidirá todos os dias se aquilo que prometeu continuará tendo valor.

