Luto em movimento

Memórias em Fios

Meu pai morreu no dia 12 de junho, deste ano de 2026. Nos últimos 5 anos, era eu e ele, redesenhando nossa história num apartamento no bairro do Juvevê em Curitiba, na capital do Paraná. Nosso apartamento foi sendo construído, aos poucos, após a pandemia do COVID-19 contendo móveis e objetos da história de cada um: cadeiras do meu bisavô; jogo de quarto dele adquirido quando tinha 7 anos de idade; prateleiras em imbuia que ele mandou fazer para organizar sua coleção de 7 mil DVDs; sua mesa de trabalho com um computador desktop; estante de livros que virou cristaleira, mas foi a primeira adquirida por ele na sua juventude… e alguns móveis meus, mais atuais. Havia uma rotina mais direcionada para ele com seus 80 anos de idade, complicações clínicas cardíacas, mas uma mente histórica incrível, e mais… uma mente autotélica. Ele criava seus próprios trabalhos com metas diárias e horários. Como encerrou recentemente a pesquisa sobre os poetas franceses do final do século XIX, estava trabalhando nos poetas italianos, mas confessava que a língua francesa era mais agradável. Celebramos seus 85 anos e paramos por aqui.

Durante estes últimos anos, conversamos sobre a morte várias vezes e eu sabia que iria enterrá-lo em algum momento. Diferente de cuidar de uma criança – criei dois filhos -, eu sabia que cuidava dele para que seus últimos dias fossem bons e a finitude era uma realidade bem próxima. Fomos felizes, tivemos nossas diferenças, compartilhamos projetos, angústias, filmes e muito conteúdo cultural. E agora estou no mesmo apartamento, mas ele não está mais.

O movimento da vida continua, tenho uma profissão, filhos, amigos e minha energia volta a cada dia. Decidi então, aceitar o convite dos meus filhos e passar um tempo com eles na Espanha. Depois das passagens compradas, me arrependi. Não era um tempo bom para férias saindo de um inverno curitibano e voando para um verão europeu. E mais, iria descansar, estar com eles, mas minha vida devia seguir onde estou. Depois vi que foi a melhor decisão. Criei emocionalmente uma ponte entre a vida anterior com meu pai e a vida atual sem ele.

Uma ponte simbólica, metaforicamente separava e dava continuidade à minha história de vida, criando o luto em movimento. E durante o mês de julho, após os trâmites iniciais do processo de enterrar uma pessoa, lá estava eu percorrendo várias pontes nas cidades da Espanha.

A companhia dos meus filhos e nora, a paisagem, a gastronomia e a cultura me inspiraram e assim, retornei motivada para criar. Voltei com meia mala carregada de fios comprados em Girona, na Catalunha, e uma coleção de cardigans está sendo tecida: ‘Memórias em Fios’. 

Esta é a terceira vez que vou à Espanha e as memórias vão e voltam, são revividas e novas  são construídas. Identifico-me com o código cultural do país. Isso me fez bem, e este movimento está ajudando no meu processo de luto onde o tempo é fundamental: “Dar tempo ao tempo!” E acredito que esses movimentos também ajudam o luto a encontrar seu próprio ritmo.

O tempo passa e enquanto isso, teço peças autorais, que serão colocadas à venda quando a primavera chegar. Porque escrever é terapêutico e tecer também!

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