A cavalinha estava podre

Sabe aqueles dias em que você precisa de algo bem específico e se dispõe a sair da sua região cômoda para buscá-lo? Então, mente é assim, atravessa rios e montanhas para achar aquilo que precisa para seu projeto. Eu sabia exatamente o que procurava e, justamente por isso, escolhi uma loja especializada. Não era uma compra que eu faria em qualquer lugar. Eu queria qualidade.

Entrei na loja, expliquei o que precisava e fui atendida por uma vendedora. Ela me apresentou a cavalinha.

Reconheci imediatamente o produto. A vendedora o manuseou, cortou a quantidade que pedi, embalou e me entregou. Paguei 90 reais, guardei minha compra e voltei para casa.

Só em casa, depois de ter atravessado “rios e subido montanhas”, descobri que a cavalinha estava podre.

O cheiro era inequívoco.

Não era um odor discreto, desses que nos fazem aproximar novamente o objeto do nariz para ter certeza. Era um cheiro que se espalhava. Impregnou minha bolsa. Alcançou outros objetos que eu havia comprado. Coloquei tudo para arejar, tentei tratar o que podia ser salvo e fiquei olhando para aqueles 90 reais transformados em alguma coisa que eu não tinha a menor condição de utilizar.

E me ocorreu uma pergunta bastante simples: como alguém pode manusear um produto tão de perto sem perceber que ele está com aquele cheiro?

Não tenho resposta!

Sei apenas que fiz aquilo que fazemos tantas vezes quando acreditamos estar exercendo uma boa escolha: selecionei o lugar, procurei qualidade, sabia o que queria, reconheci o produto — e voltei para casa com alguma coisa podre.

Há algum tempo venho pensando muito sobre curadoria.

Curadoria dos lugares que frequento, das relações que cultivo, das coisas que entram na minha casa, das experiências às quais me exponho. Não como uma tentativa ingênua de construir uma existência asséptica, protegida daquilo que incomoda, mas como reconhecimento de que não somos indiferentes ao que nos cerca.

Os ambientes nos atravessam.

Talvez por isso eu tenha escolhido cuidadosamente aquela loja. Eu não estava procurando apenas um produto. Estava procurando determinado nível de produto.

E, ainda assim, o “podre” entrou na minha bolsa.

É desconcertante perceber que fazer escolhas cuidadosas não nos protege integralmente daquilo que não escolheríamos.

A curadoria não é garantia de que o indesejável não entrará.

É o exercício contínuo de perceber o que entrou e decidir o que permanecerá.

A essa altura, talvez seja necessário esclarecer uma coisa.

A cavalinha não era um peixe.

Era tecido.

Mais precisamente, uma entretela conhecida como cavalinha, um material tradicionalmente utilizado para conferir estrutura a peças de costura e alfaiataria. Tenho formação em costura e, quando a vendedora me apresentou o material, reconheci imediatamente sua qualidade e sua função.

Eu precisava de estrutura.

Estava desenvolvendo uma bolsa de crochê e procurava uma solução para sustentá-la internamente sem interferir na sua arquitetura.

Foi por isso que comprei a cavalinha.

E talvez tenha sido justamente aí que a história deixou de ser apenas a história desagradável de uma compra de 90 reais que terminou no lixo.

Porque algumas coisas chegam até nós com aparência de estrutura.

Só depois percebemos que elas não sustentam nada nosso.

Durante algum tempo ainda pensei em salvar aquele pedaço de tecido. Poderia lavá-lo. Mas uma entretela como aquela cumpre sua função justamente por seu corpo, sua rigidez, sua estrutura. Lavá-la poderia retirar a goma e comprometer aquilo que me fizera comprá-la.

Eu teria então uma cavalinha talvez menos fedida e provavelmente inútil.

Joguei-a no lixo.

Mas o cheiro permaneceu por algum tempo.

Na bolsa.

Nos materiais.

No ambiente.

No meu nariz.

E foi o cheiro que me levou para muito longe dali.

Há muitos anos li A teoria do bambu, de Ping Fu e permaneceram cenas. Quando leio, frequentemente não guardo apenas palavras. Construo imagens. Vejo ambientes, pessoas, movimentos. Algumas vezes, quase sinto seus cheiros.

Da história de Ping Fu e de sua irmã, em meio à violência e às privações narradas sobre a China da Revolução Cultural, ficou em mim uma imagem particularmente persistente: a tentativa de produzir alguma beleza dentro de um ambiente que oferecia muito pouco dela. Restos de tecido, pequenos gestos, alguma forma de reorganizar o espaço.

O que fazemos quando a realidade não nos oferece “beleza”?

Talvez seja por isso que algumas pessoas romantizam a vida.

Não estou falando da romantização que falsifica a realidade, que coloca flores onde existe violência ou transforma sofrimento em virtude.

Estou falando de outra coisa.

Da capacidade humana de produzir “beleza” apesar da realidade.

Porque o romance nem sempre está no ambiente.

Às vezes, o romance é uma ação humana sobre o ambiente.

Nós movemos um objeto. Escolhemos uma cor. Plantamos alguma coisa. Acendemos uma vela. Escrevemos uma poesia. Preparamos uma mesa e recebemos pessoas. Criamos uma roupa. Fazemos alguma intervenção, por menor que seja, dizendo ao mundo:

Isto aqui ainda pode ser diferente.

Talvez romantizar a vida não seja acreditar que ela seja um romance.

Talvez seja assumir alguma autoria mesmo quando a realidade não colabora com o enredo.

Nos últimos tempos, tenho pensado bastante nisso porque, enquanto produzo beleza, também tenho precisado lidar com “coisas muito pouco belas”.

Há uma espécie de contraste permanente entre aquilo que tento criar e aquilo que a realidade eventualmente deposita diante de mim.

Eu produzo poesia e, vez ou outra, preciso lidar com o “podre”.

Mas a poesia não elimina o “podre”.

Ela é aquilo que continuamos produzindo mesmo tendo de lidar com ele.

Naquela noite, depois de jogar a cavalinha fora, voltei ao problema inicial.

Eu ainda precisava estruturar a bolsa.

Procurei técnicas. Pensei em telas, espumas, entretelas, forros. Nenhuma solução me satisfazia. A estrutura que eu colocasse por dentro apareceria pelos pequenos espaços do crochê e interferiria naquilo que eu havia criado por fora.

Então parei de procurar uma estrutura externa.

E pensei: por que não construir a estrutura com a própria matéria da bolsa?

Fio sobre fio.

Crochê sobre crochê.

Granny square sobre granny square.

A mesma linguagem sustentando a si própria.

Foi quando percebi que eu não precisava mais da cavalinha.

Nem tudo aquilo que escolhemos será bom. Nem tudo que vem de lugares cuidadosamente selecionados corresponderá àquilo que esperávamos. Nem sempre perceberemos o problema antes de pagar a conta. Algumas coisas entrarão em nossas bolsas, em nossas casas e em nossas vidas antes que reconheçamos o “cheiro”.

Curadoria não é impedir que isso aconteça.

É perceber.

É escolher o que fica.

É retirar aquilo que não queremos incorporado à nossa construção.

E, quando a estrutura disponível não serve mais, talvez seja necessário criar outra.

Afinal, eu só queria forrar uma bolsa!

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