Utilizando o conceito da Psicologia Ambiental fui buscar um “jardim de cura” mais próximo da minha casa, pois estava em pé, produzindo desde às 6 horas da manhã, ainda teria trabalho à noite e meio corpo começava a dar sinais de cansaço. Por que não me reabastecer no meio da tarde junto a natureza verde com seus muitos tons do outono, pássaros e lagos?
Era uma tarde com um calor agradável, céu azul, sem vento e assim, imperdível para uma caminhada ao ar livre e um tempo para contemplação recostada no tronco de uma árvore. Momento de rever a semana, o mês, o ano e também a vida! Momento de gratidão e inspiração para continuar!
Esta solitude – estar bem acompanhado por si mesmo – é bem diferente da sensação de solidão. Aprender a estar na sua boa companhia é exercer o direito de sentir-se bem consigo mesmo e o direito de independência. Independente das regras definindo que no horário comercial precisamos estar fechados num escritório trabalhando, eu me levo no meio da tarde para um passeio no parque.
E quem disse que não foi um tempo de relaxamento, reabastecimento e também um tempo produtivo? A ideia deste artigo surgiu lá, enquanto caminhava pelas trilhas arborizadas com árvores frondosas. Olhar para os muitos tons de verde apresentados na natureza está comprovado que altera estados emocionais, pois estimula o sentido da visão com imagens consideradas instintivamente belas.
Lá estou eu – absolutamente conectada com o espaço a minha volta – e me deparo com uma árvore isolada das outras, imponente, com um tronco largo mas ramificado desde embaixo. Precisei levantar o pescoço para visualizar as pontas de seus galhos, finos e delicados balançando suavemente destacando-se no fundo azul do céu. Sua presença naquele espaço com certeza tem muitas décadas e foi esta constatação que fez eu me aproximar dela e desejar abraçá-la. Eu tenho este hábito, abraçar árvores!
Naquele momento foi como se eu me reconhecesse nela, se eu fosse uma árvore seria assim. A minha solitude estava ali representada!
Apesar do parque imenso e repleto de árvores, ela estava a uma certa distância das outras e não num emaranhado delas. Sua base muito sólida e larga chamava a atenção por apresentar ramificações, sugerindo a necessidade de buscar iluminação e nutrientes desde o início de seu crescimento num processo de flexibilização. Sua robustez era amenizada pela delicadeza de seus galhos que ascendiam em direção ao céu. Reconheci força e suavidade!
O revestimento do tronco – sua casca – era absolutamente liso num tom acinzentado e convidativo para um abraço acolhedor e cheio de energia. Foi aí que percebi as muitas marcas feitas por canivetes, com inscrições de pessoas que se comunicaram com ela. Realmente ela chama atenção e seu tronco foi utilizado para perpetuar juras de amor por namorados testemunhando parcerias, desejos, sonhos, tesão e amizade. Em alguns pontos sua seiva liberava um “choro” de dor como lágrimas escorrendo da face. Com certeza ela também testemunhou dores e perdas emocionais.
Quanto mais fico perto dela, mais vou me identificando! Já estou na meia idade e com uma carreira como psicóloga acompanho dores e amores; sonhos e desilusões; me apresento como uma fortaleza e uma “sombra” acolhedora; me flexibilizo para não julgar e me torno compassiva; sou procurada entre muitas mas posso ser identificada isoladamente; me abasteço com a luz do sol e busco a infinitude do céu; sofro com as intempéries e tenho marcas no corpo mas continuo altiva; sou procurada, acolho, revigoro e deixo o outro ir.
Nesta projeção com a árvore vivo a minha solitude nos “jardins de cura” que são meu mundo interno com diálogos mentais e o mundo externo que busco no meu bairro, na minha cidade, no meu país, em outros países…



Quanta LUcideZ na solitude !!
Larissa Grabowski 41 9 9922 1814 larissagrabowski75@gmail.com
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