Qual a estatística de sua existência?

Você sabe me responder? Quantos cursos você já fez? Quantos amores já teve? Quantos amigos no Facebook? Quanto custa seu carro? E sua casa? Quantas cidades do Brasil você conheceu? Quantos países? Quanto tempo falta para a sua aposentadoria?

‘As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: “Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que ele coleciona borboletas?” Mas perguntam: “Qual é sua idade? Quantos irmãos tem ele? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?” Somente então é que elas julgam conhecê-lo. Se dizemos às pessoas grandes: “Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas no telhado … elas não conseguem, de modo nenhum, fazer ideia da casa”. É preciso dizer-lhes: “Vi uma casa de seiscentos contos”. Então elas exclamam: “Que beleza!”

Assim, se a gente lhes disser: “A prova de que o principezinho existia é que ele era encantador, que ele ria, e que ele queria um carneiro. Quando alguém quer um carneiro, é porque existe” elas darão de ombros e nos chamarão de criança! Mas se dissermos: “O planeta de onde ele vinha é o asteroide B612” ficarão inteiramente convencidos, e não amolarão com perguntas. Elas são assim mesmo. É preciso não lhes querer mal por isso. As crianças devem ser muito indulgentes com as pessoas grandes.’

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Saint –Exupéry em O Pequeno Príncipe

Esse universo adulto me assusta, pois utiliza estatísticas envoltas em números e cifras para definir sucesso, capacidade, competência, inteligência, felicidade …  Enquanto isso o tempo passa e o essencial que envolve as sensações, vai ficando anestesiado e aos poucos o adulto se torna insensível. Não consegue absorver a magnitude do azul do céu, do cheiro da maresia, do perfume de flores, do olhar curioso de uma criança, do toque afetuoso das mãos dadas. O  essencial que envolve os relacionamentos como um encontro pra jogar conversa fora, as piadas e anedotas, o apreciar de receitas culinárias vão ficando na lista da perda de tempo, ou melhor, da perda de números: – Quanto que eu ganhei com este encontro?

Números , números, números.

Cuidado com eles! O movimento da vida vai mais além do que eles.

Tente fazer como as crianças, descreva as sensações do seu dia.

Eu disse as sensações, não os fatos!

Vamos ao dicionário: sensação – percepção pelos sentidos (visão, audição, olfato, tato, paladar); grande impressão ocasionada por acontecimento extraordinário.

Quer ouvir sobre um acontecimento extraordinário? Pois bem! Estava de férias fotografando alguns casarios históricos em Recife e fui convidada pela moradora para entrar e ver a reforma que estava fazendo.  – Minha nossa, que emoção! Mais de cem anos de história (sou adulta e tenho que utilizar alguns números para ser entendida). Tinha gente morando ali, não era um museu; pé direito de nove metros e iluminação natural; portas imensas com ventilação superior através de arabescos em ferro; seis quartos sendo três de cada lado e todos com portas para um longo corredor; apenas um banheiro, já reformado utilizando recursos modernos; janelas amplas da sala de entrada utilizadas como “namoradeira” mantinham o romantismo da casa. Eu estava um tanto constrangida, queria fotografar tudo para dividir com as pessoas as minhas sensações e, ao mesmo tempo, não parava de agradecer a anfitriã que amavelmente mostrava a intimidade de sua casa. Ela não quis sair na foto, por não estar arrumada para isso, mas mostrou o quarto onde dormia e explicou que estava tendo problemas com infiltração numa parede e não conseguia descobrir de onde vinha a causa que insistia em manchá-la.

Para aqueles que conseguiram imaginar (o interior da casa não vou mostrar para deixar uma ar de suspense) mas para provar que o fato aconteceu, vou colocar a foto da janela onde imagino ter ocorrido muitos suspiros românticos.

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3 comentários sobre “Qual a estatística de sua existência?

  1. Fiquei emocionada com seu texto, adoro voltar ao passado através de cidades historicas. Aqui na capital capixaba tinha uma casa maravilhosa que a família real havia se hospedado, estava abandonada e se tornado abrigo para moradores de rua, um belo dia passei em frente e haviam reformado, não contive a emoção, ficando radiante como se fosse a minha casa…

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