Os olhares se cruzaram assim que ele entrou na sala, e nos próximos minutos mãos e braços também estariam entrelaçados em toques suaves, acompanhados daquele mesmo olhar. Primeiro dia do curso de dança contemporânea e, sob o olhar atento do professor, os movimentos foram gradativamente tornando-se desafiadores, num bailar de corpos desconhecidos e juntos pela mesma afinidade, a dança. A cada semana novo encontro, os movimentos evoluíam e exalavam o cheiro da diversão e da diversidade. Ela mais velha, mas ágil, ele tatuado e enigmático. Ela sentindo a conexão que um dia se desconectou ao perceber a troca de beijos com outra colega, bem mais jovem. Mirando-se no espelho da sala de aula, via sua condição de mulher madura e sozinha, essa era sua realidade.
Quantas vezes o espelho deixou de ser seu cúmplice?
Quantas vezes ele não refletiu a verdadeira energia daquela mulher?
Sua sensualidade desde menina fora camuflada por roupas sóbrias, saias compridas, poucos ornamentos e intensificou-se pelo alto nível de intelectualidade.
Mas… os poucos homens que a tocaram puderam sentir a “mulher camaleoa”.
O espelho insistia em não revelar seu verdadeiro ser, agora envelhecido pela passagem do tempo cronológico, onde as marcas na pele eram reforçadas pelas decepções e frustrações com amores, amantes, amigos…
Difícil entender a relação quando os corpos se atraem e desejam permanecer próximos, mas a realidade social e cultural grita fortemente a discrepância.
Apenas uma mulher e um homem!
Verdadeiramente não são apenas corpos, mas seres altamente complexos, com seus projetos por vezes medrosos e outros, ousados. Quando esses projetos entram em conflito, os corpos não conseguem permanecer juntos.
Onde foi parar aquela atração?
Esvaiu-se!
E o espelho insiste em não revelar o verdadeiro ser, que envelhecido ainda deseja o toque com afeto, o olhar de admiração, o sussurro do desejo.
Assim, as mulheres no século XXI amargam sua realidade, onde a independência de ideias e a liberdade financeira foram vencidas pelo cruel espelho.


