Meu ‘eu’ exposto nas mídias digitais

“Dentro do peito algo explode e minha mente, não consegue parar de pensar.
Aquilo que sinto e penso precisa ser colocado para fora, pois, minhas vísceras não comportam todo o conteúdo.
O que fazer?
Ligar para alguém está fora de questão, não desejo incomodar.
Posso deixar uma mensagem de voz, que será ouvida no momento oportuno.
Ótimo, farei!
Mas ainda não consegui esvaziar meu ‘eu’ com tanta emoção, preciso compartilhar neste exato momento.
Será que mais alguém está sentindo algo semelhante?
Quem poderá me acolher com um comentário?
Em poucos momentos, fico sabendo o que minha rede de amigos nas mídias sociais está vivenciando. Que bom que posso, assim como eles, compartilhar ideias, opiniões, sensações e sentimentos positivos e negativos.
Começo a me sentir mais pacificado, pois faço parte de uma comunidade, onde mesmo com divergências, é permitido a livre expressão.
Meu ‘eu’ está pertencente e isto me acalma!”

Somos seres eminentemente sociais e mesmo aqueles que se reconhecem como tímidos, com dificuldade de interação buscam achar a sua “tribo” com afinidades que possam ser partilhadas. A busca pela sinergia entre pessoas onde ideias, desejos, talentos possam ser construídos mutuamente é inerente ao ser humano e os meios de comunicação, fundamental para materializar isto.

O que vivemos no século XXI é uma velocidade nunca antes sentida, onde os mensageiros digitais garantem a comunicação em tempo real e onde, mudar de opinião ou arrepender-se pela manifestação de uma emoção, pode custar muito caro e ser perpetuado por muito tempo.

Mais do que nunca, precisamos do desenvolvimento de habilidades sociais.

“O comportamento socialmente habilidoso é esse conjunto de comportamentos emitidos por um indivíduo em um contexto interpessoal que expressa os sentimentos, atitudes, desejos, opiniões ou direitos desse indivíduo, de um modo adequado à situação, respeitando esses comportamentos nos demais, e que geralmente resolve os problemas imediatos da situação enquanto minimiza a probabilidade de futuros problemas”. (Caballo, 1986).

A expressão do ‘eu’ sempre foi uma necessidade humana e objetos de arte são a materialização disso. Eles foram confeccionados por pessoas “encharcadas” de emoções ou ideias e são objetos de desejo de outras pessoas que veem seu ‘eu’ sintetizado naquela obra.

Os poetas e escritores também traduzem dores e amores com sua fala expressiva e sintetizadora, que nos ajudam a organizar um ‘eu’ caótico. Mergulhamos em leituras, música e filmes nos apropriando da produção do outro, para falar o que pensamos e expressar o que sentimos.

Não desejamos ser censurados pois o que vivemos é real, está dentro de nós e por isso é verdadeiro, mas nem sempre adequado pelos padrões da sociedade em que estamos inseridos, nascendo assim, um conflito entre ‘eu’ e o ‘outro’.

Justamente este conflito, é que pode levantar nosso mecanismo de sobrevivência, acionando o instinto de luta ou fuga emitindo um comportamento agressivo, pois neste momento de estresse, nosso corpo é inundado de adrenalina, perdemos a razão e podemos passar por cima do direito de outras pessoas.

A censura da livre expressão de ideias, comportamentos e emoções também pode gerar um constrangimento, atingindo profundamente a autoestima. Com o ego ferido e o conceito de si mesmo abalado, podemos ser tocados por uma onda de passividade e insegurança. A sensação de desamparo pode levar a quadros de depressão que em níveis altos chegam ao suicídio, pois não existe eco nas relações interpessoais e assim, não existe motivo para existir nesta sociedade repleta de regras, padrões e censuras.

A utilização das mídias sociais para a expressão de comportamentos agressivos e passivos, tem revelado a dificuldade do ser humano controlar o que o cientista Paul McLean intitulou de ‘cérebro triuno’ e comprovado pela ressonância magnética funcional. Quando somos expostos a estímulos, áreas do nosso cérebro acendem-se em conexões sinápticas, revelando o funcionamento determinante do comportamento.

Acreditamos que somos seres eminentemente racionais, mas a razão está localizada em uma terça parte do cérebro conhecida como ‘córtex cerebral’, responsável pelas funções psicológicas superiores, como a memória e a capacidade de análise e síntese.

Nossas emoções ficam localizadas em outra área chamada de ‘sistema límbico’, responsável pelos vínculos afetivos e seu funcionamento, pode ser observado em pessoas que demostram a capacidade de maternidade e paternidade.

E a terceira parte, que pelos estudos foi a primeira a constituir o funcionamento cerebral ao longo da evolução do homem, chama-se ‘cérebro reptiliano’ pela semelhança com o instinto de sobrevivência dos répteis. Nesta área está localizado nosso instinto de luta ou fuga, o impulso sexual, a fome e o sono. Nesta área também, temos um sistema que procura economizar energia no funcionamento cerebral, ritualizando nossos comportamentos. Aquilo que costumamos fazer diariamente e repetidamente, passa a ser registrado e não mais analisado racionalmente. O caminho que sempre fazemos, o alimento que sempre comemos, o lazer que sempre temos… será registrado e feito automaticamente. É a área cerebral, que mais dificuldade temos para alterar. Os vícios e as compulsões de toda a natureza, estão sedimentados nesta área que é amoral. Ela não analisa o que é certo ou errado, determinando o comportamento, mesmo irracional.

‘Cérebro Triuno’

A grande aventura da vida é a busca pelo equilíbrio dos três cérebros, dentro de um único que nos define. Não podemos ser infantis a vida toda e nos deixar levar pelas emoções. Tão pouco, funcionar apenas pelo instinto de sobrevivência ou de maneira cartesiana, analisar matematicamente as situações.

Quando conscientemente identificamos o desequilíbrio, normalmente pelo feedback do outro, podemos trabalhar o aprimoramento do nosso ser social. A inter-relação com o outro ‘face to face’ nos fornece elementos para o intercâmbio de ideias e emoções. A expressão facial, gestos, postura, o olhar, contato ou distância física, a entonação e volume da voz, tempo de fala, o conteúdo e a fluência, são elementos que nos ajudam a conhecer a pessoa com a qual estamos interagindo. São fundamentais para gerar uma comunicação autêntica, retroalimentando nossas relações. Quando nos mostramos agressivos, podemos pedir desculpas. Quando nos sentimos intimidados, podemos investir em empoderamento.

Mas a comunicação nas mídias digitais não requer estes elementos de interação, afinal não é uma relação ‘face to face’, onde somos retroalimentados ‘in time’. Esta nova forma de comunicação permite que selecionemos aquilo que queremos revelar, que paremos para pensar antes de darmos uma resposta. A tecnologia mobile permitiu acesso a recursos fotográficos, onde nossa melhor versão pode ser “construída” e divulgada nas diversas mídias sociais.

Sem barreiras para construir a imagem que desejamos “vender” para o mundo, muitas pessoas veem-se tentadas a criar falsos gravatars imprimindo não somente uma foto fake mas uma identidade falsa. A comunicação passou a ocorrer dentro de uma realidade paralela, construída para revelar um ‘eu’ ideal. Meninas púberes mostram-se como mulheres voluptuosas e assim, passam a ser objeto de desejo. Adolescentes tímidos apresentam-se como verdadeiros conquistadores e constroem namoros virtuais, que não teriam repertório comportamental para construir ‘face to face’. Homens e mulheres idosos mascaram sua idade, relacionando-se virtualmente com jovens, caracterizando comportamento pedófilo. A infidelidade conjugal passou a acontecer dentro do próprio lar, cercado pelo cônjuge no que é chamado sexo virtual. Como nosso cérebro não distingue aquilo que pensamos, do que estamos realmente vivendo, ele ficará saciado computando estas relações como verdadeiras. O virtual passa a ser tão real quanto o aroma que sentimos, o aconchego de um abraço e o sabor de um alimento.

Assim como no mundo real existem limites para o comportamento, gradativamente foram sendo criados limites para as inter-relações no mundo virtual, na tentativa de desenvolver um comportamento socialmente habilidoso.

Mas existe uma gama de pessoas que não deseja a comunicação com este mundo virtual, pois quando nasceram ele não existia e hoje, o utilizam parcialmente mantendo restrições, justificando que não é do seu perfil expor-se. São pelo menos duas gerações no planeta chamadas de ‘Geração Baby Boomers’ nascida pós-segunda guerra mundial, e ‘Geração X’ nascida entre 1960 e 1980, que podem ser intituladas “analógicas” optando ou não por atualizar-se. Como no mundo sobrevive o mais adaptado, aqueles que estão no mercado de trabalho e fazem parte destas gerações, precisam usar sua experiência acumulada aliada aos nascidos na ‘Geração Y’, após 1980, que já tinham como brinquedo o vídeo game, crescendo num mundo digital e robótico, cursando universidade com notebooks e colocando seus currículos no mercado através do Linkedin. A opção por atualizar-se ou não, utilizando as mídias digitais como ferramenta é um direito de cada pessoa, mas é inegável que entramos num caminho sem volta.

Alguns adoraram este caminho e não saem dele por nada!

Fazem parte de um grupo de pessoas com Perfil de Personalidade extrovertido, onde não basta ser, estar e ter é imprescindível compartilhar tudo isso, e as mídias sociais caíram como uma “luva”, atendendo esta demanda de funcionamento. Este Perfil de Personalidade socialmente é um catalisador de pessoas, estão sempre rodeados delas e seu sucesso, é medido pelo número de amigos ou melhor dizendo, conhecidos. Um aceno é o suficiente para preencher o requisito e entrar para a “tribo”. Também são mais passionais, são eles que geram polêmicas, que manifestam suas opiniões “doa a quem doer” e não hesitam em bloquear ou excluir um “amigo” que manifestou-se contrário à ele. Este Perfil de Personalidade nas mídias sociais, pode passar por cima do direito do outro ser tratado com respeito e dignidade quando contrariado, em função da falta de maturidade para controlar as emoções, em ebulição. Como expõem facilmente sua intimidade, também são aqueles mais sujeitos a sofrer assédios e quando necessário, procurar maneiras jurídicas para amenizar a situação.

Uma reportagem da UOL Notícias de junho de 2017 citando o jornal The Harvard Crimson, especializado em assuntos da universidade de Harvard localizada em Massachusetts, nos Estados Unidos, não aceitou a entrada de dez alunos aprovados, identificados como fazendo parte de um grupo no Facebook com trocas de mensagem incentivando o estupro e ironizando minorias como latinos, negros e judeus. O grupo oficial no Facebook apresenta um alerta lembrando que a Universidade “pode revogar a admissão em diversas condições, incluindo se o aluno se engajar em situações que coloquem em dúvida sua honestidade, maturidade ou caráter.”

Casos como este, propagam-se rapidamente, intimidando aqueles com Perfis de Personalidade mais cauteloso. Se não gostavam de expor-se, agora tem motivos concretos para isso. Mas acaba sendo uma armadilha social, pois a comunicação passa pelo universo on-line. Se o seu nome for Googleado –  procurado na web – e não for encontrado, seu trabalho, ou melhor dizendo, sua existência é irrelevante.

Como disse anteriormente, é um caminho sem volta!

Diante deste cenário só nos resta aprender as regras deste universo on-line para nos estabelecermos com uma comunicação assertiva, criando oportunidade para si próprio e para seu negócio, manifestando claramente seus valores e opiniões. Para isso, podemos nos inspirar nas Habilidades Sociais que norteiam as relações ‘face to face’ utilizando a Lista de Direitos Humanos* para balizar nossa comunicação e comportamento nas mídias digitais.

  1. O direito de manter sua dignidade e respeito comportando-se de forma habilidosa ou assertiva – inclusive se a outra pessoa sente-se ferida – enquanto não viole os direitos humanos básicos dos outros.
  2. O direito de ser tratado com respeito e dignidade.
  3. O direito de negar pedidos sem ter que sentir-se culpado ou egoísta.
  4. O direito de experimentar e expressar seus próprios sentimentos.
  5. O direito de parar e pensar antes de agir.
  6. O direito de mudar de opinião.
  7. O direito de pedir o que quiser, entendendo que a outra pessoa tem o direito de dizer não.
  8. O direito de fazer menos do que é humanamente capaz de fazer.
  9. O direito de ser independente.
  10. O direito de decidir o que fazer com seu próprio corpo, tempo e propriedade.
  11. O direito de pedir informação.
  12. O direito de cometer erros e ser responsáveis por eles.
  13. O direito de sentir-se bem consigo mesmo.
  14. O direito de ter suas próprias necessidades e que essas sejam tão importantes quanto as do demais. Além disso, temos o direito de pedir (não exigir) aos demais que correspondam às nossas necessidades e de decidir se satisfazemos as dos demais.
  15. O direito de ter opiniões de expressá-las.
  16. O direito de decidir se satisfaz as expectativas de outras pessoas ou se comporta-se seguindo seus interesses – sempre que não viole os direitos dos demais.
  17. O direito de falar sobre o problema com a pessoa envolvida e esclarece-lo, em casos limite em que os direitos não estão totalmente claros.
  18. O direito de obter aquilo pelo que paga.
  19. O direito de escolher não comportar-se de maneira assertiva ou socialmente habilidosa.
  20. O direito de ter direitos e defende-los.
  21. O direito de ser escutado e levado a sério.
  22. O direito de estar só quando assim o desejar.
  23. O direito de fazer qualquer coisa enquanto não viole os direitos de outra pessoa.

*Vicente E. Caballo – Manual de Técnicas de Terapia e Modificação do Comportamento (1996)

Utilizando a Lista dos Direitos Humanos como base para o comportamento nas mídias digitais, podemos e devemos expressar nossa opinião, desde que não viole o direito do outro de expressar a sua, estabelecendo assim um troca de ideias e pontos de vista de maneira polida, respeitando o direito de independência de cada um.

Da mesma maneira, a exposição do próprio corpo e do seu patrimônio nas mídias sociais é uma decisão independente e deve ser respeitada como um direito, lembrando que se a pessoa opta por não comportar-se de maneira socialmente habilidosa, poderá responder pelas consequências naturais da sua decisão.

Segundo o psicoterapeuta e professor na Fundação Dom Cabral, Roberto Aylmer, especialista em transformação da cultura e gestão estratégica de pessoas: “A superexposição nas redes sociais pode resultar numa geração arrependida daqui a alguns anos, quando opiniões políticas e constrangimentos compartilhados hoje poderão prejudicar a imagem de executivos no futuro”. Neste momento de redefinição do conceito de privacidade, é preciso ter moderação. (Revista Você S/A – agosto 2018)

As estatísticas também começam a apresentar dados em relação a comportamentos da geração que cresceram na velocidade dos bytes, os chamados nativos digitais sofrem dos mesmos dilemas e problemas antigos.

Mas qual a diferença em termos de comportamento?

O imediatismo que as mídias digitais oferecem afetam o tempo real para curar as dores da perda de um relacionamento, o tempo para mudar o metabolismo do corpo em processo de emagrecimento, as etapas numa empresa rumo à promoção. Para esta geração, esperar o tempo preparando a terra, semeando, regando, para ver a planta crescer, dar flores e frutos tornou-se frustrante, pela lentidão do processo de desenvolvimento. Os jovens estão sofrendo pela dicotomia entre o universo virtual e o mundo real, onde o número de curtidas passa a ser o mediador de afetos e relacionamentos, na busca pelo reconhecimento.

A professora de Psicologia da Universidade do estado de San Diego, nos Estados Unidos, Jean Twenge, autora do livro iGen: por que as atuais crianças superconectadas estão crescendo menos rebeldes, mais tolerantes, menos felizes e completamente despreparadas para a vida adulta – alerta para o tipo de educação que estão recebendo de pais superprotetores e uma hiperexposição aos smartphones, criando uma geração de pessoas mais superficiais, que convivem menos com os amigos, que se comparam virtualmente com os outros e acreditam que ser sozinho é “cool”, pois precisar de alguém pode ser visto como “patético”. Mas a necessidade de pertencimento continua, o uso dos hashtags (#), jogos e desafios virtuais e os grupos fechados são a prova de que precisamos de interação, e quando isso não acontece, o nível de frustração e rejeição pode levar ao suicídio. Segundo o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, coordenador do Mapa da Violência no Brasil, os atentados contra a própria vida no país tiveram um aumento de 65% entre jovens de 10 a 14 anos e de 15% dos 15 anos aos 19 anos, entre os anos de 2000 e 2015. (Revista Contato n° 119 / 2018).

Constatando que o universo virtual é um caminho sem volta e pode conter a armadilha do imediatismo, nos resta olhar para a unidade de tempo que define a vida pulsando dentro de nós, e procurar estabelecer uma relação saudável e equilibrada. Estar em ‘tempo presente’ sorvendo os estímulos através dos cinco sentidos – visão, audição, olfato, tato e paladar –  continua sendo uma prática que diminui a ansiedade e imprime memórias afetivas, gerando boas lembranças ao longo da vida. Estas lembranças, também podem ser perpetuadas pelas fotos e as postagens instantâneas nas mídias sociais, compartilhadas com amigos. Mas cabe lembrar, que o universo virtual deve ser um reflexo do mundo real, percebido e experienciado pelo nosso verdadeiro ‘eu’.

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